Quinta-feira, Março 15, 2012

Música para os meus ouvidos




Gostava de ter mais tempo. Mais tempo para poder ser mais vezes eu. Para despir a capa que tenho que vestir e ser eu. Ser eu sem tempo.

Gostava de ter tempo para escutar o que a vida me quer dizer a cada passo. O ruído de um sapato que é diferente do outro. O som que faz um tecido a roçar na minha pele. O barulho que mora na tranquilidade de um pé de salsa.

Gostava de andar de bicicleta. Gostava de morar numa cidade plana, como a Gafanha. Gostava de sair de manhã e voltar à noite. Esgalgada de fome. Sem telemóvel. Sem ninguém à perna.

Gostava de viver mais para a música. Ter mais tempo para a música. Ter tempo para fazer mais coisas, mais música.

Gostava disto tudo. Mas só gostava disto tudo porque finalmente sei o que isto é.
Sei o que é "não fazer mais por não ter tempo".
Sei o que é ter vontade e o relógio não parar, e a semana chegar ao fim. E ter que ficar para a próxima semana...

Sei tudo isto.
E sei que quis a vida assim, cheia. Ocupada. Linda e luminosa.
E, pensando naquilo que era há um ano atrás, sentir-me ocupada é "música para os meus ouvidos".

Se, por outro lado, não tenho tempo para as pessoas, é um facto.
As pessoas que importam sabem que, para elas, há sempre tempo.

Segunda-feira, Dezembro 26, 2011

E lá se conta outro

É engraçado que me lembro nitidamente de ter escrito, pela mesma ocasião, em 2009 e 2010. Já lá vão. Parece que foi ontem. E não o digo por ter que dizer ou porque parece bem uma pessoa fingir que o tempo não passa. A verdade é que por vezes, e dá-me ideia de que à medida que vamos envelhecendo esta consciência é assustadora, sentimos que o tempo passou por nós como uma corrente de ar. Como se não tivéssemos sequer a oportunidade de controlar as intensidades, as durações, as pessoas com quem partilhámos cada minuto de cada dia.

Feitas as contas, gastamos muito tempo a dormir. Eu cá não abdico das minhas 7 a 8 horas de sono profundo diárias. Já tentei ser mais poupada e aproveitar o tempo para outras coisas mas a minha cabeça e o meu corpo ainda me pede descanso. As minhas preocupações ainda não são as suficientes para me tirar o sono. Deve ser porque ainda não tenho filhos para alimentar nem para vestir. Nem gente para gerir. Ainda assim, quando o despertador toca com aquela folga magnífica da ronha, afundo nas minhas listas intermináveis de "coisas a fazer". No dia, na vida. Telefonemas a fazer, pessoas que desejaria rever, bandas que gostaria de ver, projectos de vou idealizando mas, sobretudo, faço as listas do que tenho que fazer no trabalho. E escapa-me sempre qualquer coisa... Não há muito tempo acreditava piamente na minha memória. Apenas na minha memória. Agora, ando carregada com notas e uma agenda cheia de papéis e, ainda assim, algo me vai escapando.

Feitas as contas, gastamos tempo a planear coisas que não acontecem. A contar com pessoas que não aparecem. A passar para segundo plano quem mereceria estar em primeiro e vice-versa. A medir a cintura e a ver se as calças continuam a servir(a medida de choque, nos últimos anos, tem sido uma sweatshirt do Pai Natal que visto pelo Natal, obviamente).

Feitas as contas, queixo-me de cansaço, de falta de tempo para mim e para os amigos, mas a verdade é que tenho trabalho enquanto muitos desejariam ter e não têm. Estive sentada, no dia de consoada e dia de Natal, numa mesa farta enquanto há tanta gente que não tem o que comer.

Feitas as contas, há gente que luta pela vida TODOS os dias. Para continuar a fazer a diferença na vida de quem, aparentemente, tem uns dias a mais nas contas finais.

Feitas as contas, o que somos nós senão a diferença que fazemos na vida dos outros?! O que somos nós senão, aquilo que nos mantém a todos vivos, o amor? Pelo próximo?

Pó...
Insignificantes.

E eu quero continuar a contar muitos anos. Ainda que deprimida, zangada (muitas vezes), despassarada, distante, sozinha e acompanhada. Quero continuar a contar muitos. Como este que passou. Que me ensinou muita coisa, que me trouxe certeza no meio da dúvida. Que me permitiu assistir pela primeira vez a um concerto da Tori Amos, que me ofereceu a entrada VIP para o coração de muitos.
Por estas razões e mais algumas, quero continuar a contar muitos anos. Piores ou melhores, tanto me dá. Lá se vão contando. A cantar músicas destas logo pela manhã.



"Well, music, good friends, I'm not dying today.
I may be six feet under, full of wonder
But I'm not dying today, not today."
(Tori Amos - Not dying today)

Terça-feira, Novembro 15, 2011

Vida a dois

Muito se fala do que penso de uma vida a dois.
Do que acredito ser um relacionamento funcional, com sentimento, saudável.

Pois então cá está. A foto fala por si.



Uma dança.
Uma dança em que é preciso dois!

Em que, de vez em quando, a gente se afasta para "dar o ar de sua graça", mas volta. Rapidamente volta ao par. E não porque ele nos puxa. Nem sempre nos puxa...

Mas porque a gente precisa de lá estar.
Só faz sentido se a gente lá estiver...
Com o nosso par.

Quinta-feira, Setembro 29, 2011

Escolha

Os que nos faz ser segunda escolha na vida de alguém?! O que faz com que não reconheçam o nosso brilho, espelhado nos olhos, cravado nas rugas e no sorriso?! O que faz de nós seres abomináveis e dispensáveis em suas vidas?!
Efectivamente não o sei. Gostaria de o saber mas desconheço por completo todas as razões do inquestionável, do injustificável. Talvez por não as procurar ou, quando procuro, não as entender.
Os laços imperceptíveis que nos prendem não se negam. São totalmente existentes e respeitáveis. São imutáveis, como o cheiro deste Outono que chega em passinhos leves com o cheiro a chuva mansa e a terra ávida de água. São abraços imperfeitos à memória e ao coração. São desenlaces constantes de dedos da mão... Da minha mão... Das nossas mãos. São o desprender inconsciente de uma criança à qual se corre no imediato a socorrer e pegar ao colo. Para jamais se perder. Para jamais sair de nós. São a dor que nos retalha a cada dia em que resolvemos acordar e levantar o nariz.
Todos os dias escolho. Escolho a roupa que visto, ainda que por vezes a repita, ou o perfume que uso. Escolho-me a mim. E a tudo o que me pertence. Escolho as minhas lembranças e memórias de um tempo em que fui a escolha de alguém. Dias em que alguém precisava falar-me para terminar bem o dia.
Pois o dia, sem mim, chegaria ao fim, e não seria perfeito.

Quarta-feira, Agosto 10, 2011

Amigo


Tenho um amigo que conheço há uns 5 a 6 anos (ele que me perdoe a falta de rigor na data) e já não me encontro com ele desde esse mesmo dia. Lembra-se de mim na maior parte dos seus dias e preocupa-se em me fazer sorrir, em fazer com que o meu dia seja salpicado de cor. Conhece os meus gostos musicais como ninguém, respeita-os, encaixa-os nos seus e cria um mundo perfeito aos meus olhos. Um mundo onde a música é o principal meio de comunicação e onde toda a gente se entende a cantarolar e a tentar entender o significado das letras... Onde, facilmente, se arrancam expressões de emoção pura!

Tenho um amigo que tem sempre que fazer quando chega a hora de nos reencontrarmos. Há sempre qualquer coisa que fazer... E assim se passam 5 ou 6 anos. E eu, que até sou uma pessoa bastante tolerante ao espaço e às distâncias, ando sempre a mandar vir com ele. Queria beber cafés com ele. Queria não ter nada que dizer durante 5 minutos. Queria fartar-me de o ver e depois passar dias sem lhe dizer nada.

E, ao escrever sobre este amigo, descobri que não tenho apenas este. Tenho uma mão deles que já não vejo há anos! Há uma década, num caso em especial. Fazeis-me falta.

Bem sei que, graças a Deus, não me faltam amigos. Mas ninguém ocupa o lugar de alguém... E o vosso cá está. À vossa espera. À espera que tenhamos tempos uns para os outros.

Porque, afinal de contas, o tempo não voa... Desloca-se à velocidade da luz!

Terça-feira, Agosto 02, 2011

Tradutor

Desistam.
Não tenho dicionários de Marianês.
Não tenciono colaborar com o Google Translator.

A minha vida resume-se simplesmente a isto.
Basicamente isto.

Quinta-feira, Julho 07, 2011

She's gone

Não sei que raio me aconteceu nesta última década. Perdi-me. Acho que, no fundo, cresci.

Crescer tem esta coisa boa que se chama trabalho. E dinheiro. E carreira e aprendizagem. Mas tem sofrimento. Daquele que não é de fazer gritar e daquele que não se esquece no dia seguinte. Daquele que prepara o terreno para "tudo o que virá depois". Não sei se crescer nos dá mais que aquilo que tira. . .

Costumava ser bem diferente. Costumava ter 100 coisas diferentes a fazer ao mesmo tempo. E era bem capaz. Poderia não ser perfeita nem excelente a tudo, mas era capaz. Hoje, só me apetece afundar no sofá. Ver séries e filmes e rir-me à parva... sozinha... A solidão faz destas coisas às pessoas: torna-se um vício.

Deixei de acreditar nos meus sonhos. Deixei, acima de tudo, de acreditar que poderiam passar de sonhos. Deixei que o meu mundo os abafasse. Para que reinasse a harmonia. Mas a porcaria da harmonia não reina!! As pessoas deixam de ser "nossas", a vida deixa de ser "nossa" e o amanhã já foi ontem. E a gente cá fica. . . a lamber as feridas e a cozê-las com pontos de sapateiro.

Basicamente, quase nos 30, tenho a dizer que a vida que tenho não é em nada semelhante à que idealizei há 10 anos atrás. Até me assusta pensar nisto em voz alta, mas é mesmo verdade. . . Com isto não quero dizer que tenha uma vida má. Nada disso!! Gosto muito do meu trabalho. Adoro os meus verdadeiros amigos. Redescobri a minha família, principalmente os meus sobrinhos e, são sem sombra de dúvida, a maior paixão que tenho na vida.(O facto de serem os meus maiores amigos, com quem saio, converso e me divirto na terra que me viu crescer, diz tudo.) Afinal de contas, não tenho mesmo uma vida má. Tenho saúde, tenho bens, e já cheguei a ter o que muita gente sonha e não alcança. Mas falto-me a mim.

Faço-me falta.


"Somebody calls you, you answer quite slowly,
A girl with kaleidoscope eyes (...)

Look at the girl with the sun in her eyes, and she's gone"

(Beatles - Lucy in the sky with diamonds)